Emergências
PlantãoAlerta
Emergência · Cardiovascular

BradiarritmiasFC < 60 nem sempre é emergência — mas QRS largo + instabilidade é marca-passo, não atropina.

Paciente kg anos mmHg bpm
1

Abordagem inicial — fluxo universal

Definição
FC < 60 bpm. Sintomática: FC < 50. Crítica: FC < 40.
Princípio fundamentalBradicardia assintomática (FC > 40, hemodinamicamente estável, sem pausa > 3s) → observar e investigar a causa. Bradicardia sintomática ou instável → tratar imediatamente enquanto investiga.

Avaliação imediata

ECG de 12 derivações · monitorização contínua · acesso venoso · SpO₂ e PA · anamnese rápida: sintomas, medicações em uso, comorbidades.
Sinais de instabilidade? (qualquer um: hipotensão PAS < 90 · síncope/pré-síncope · dor torácica isquêmica · IC aguda · rebaixamento de consciência · FC < 40 · pausas > 3s)
Instável — agir agora

Atropina 1 mg IV (ACLS/AHA 2020 — dose fixa, substituiu o esquema antigo de 0,5mg). Se refratária → marca-passo transcutâneo. Se indisponível → dopamina ou adrenalina em infusão. Preparar marca-passo transvenoso temporário em paralelo.

Estável — investigar

Identificar e tratar causa reversível. Suspender drogas bradicardizantes. Monitorização hospitalar. Avaliar necessidade de marca-passo definitivo.

Atropina — quando NÃO funcionaBAV de 2º grau Mobitz II e BAV de 3º grau (completo) com bloqueio infranodal geralmente não respondem à atropina — pode até piorar o bloqueio nesses casos. Vá direto para marca-passo transcutâneo.
2

Classificação dos BAV

BAV 1º grau — benigno

PR fixo e prolongado (> 200 ms). Toda onda P conduz ao QRS. Nunca há perda de QRS.

M1BAV 2º grau · Mobitz I (Wenckebach) — baixo risco

PR aumenta progressivamente até uma P não conduzir. O ciclo reinicia. Bloqueio nodal — geralmente benigno.

M2BAV 2º grau · Mobitz II — alto risco

PR fixo e constante, mas há bloqueio súbito de uma P sem aviso. Bloqueio infranodal (His/ramos). Risco de progressão para BAV 3º.

BAV 3º grau — completo (BAVT) — emergência

Dissociação AV total — P e QRS marcham independentes. Escape nodal (QRS estreito, FC ~40–60, geralmente estável) ou escape ventricular (QRS largo, FC ~20–40, instável).

BAV avançado (3:1, 4:1)Múltiplas ondas P bloqueadas consecutivamente. Comportamento semelhante ao BAVT — indicação de marca-passo independente de sintomas.
3

Farmacologia — atropina e alternativas

1ª linha · bradicardia sintomáticaAtropina
1 mg IV a cada 3–5 min (máx 3 mg)
Dose total máxima: 3 mg. Eficaz em BAV nodal (1º grau, Mobitz I). Ineficaz em BAV infranodal (Mobitz II, BAVT com escape largo). Dose < 0,5 mg pode causar bradicardia paradoxal. Evitar em transplantados cardíacos.
IV contínuo · se atropina falha e MP indisponívelDopamina
5–20 mcg/kg/min
β1 e α adrenérgico — aumenta FC e PA. Alternativa temporária ao marca-passo. Pode causar arritmias em doses altas.
IV contínuo · bradicardia grave refratáriaAdrenalina
2–10 mcg/min
Equivalente a 0,1–0,5 mcg/kg/min. β1+β2+α — cronotrópico e inotrópico potente. Ponte para marca-passo definitivo.
IV contínuo · pós-transplante / torsadesIsoproterenol
2–10 mcg/min
β1+β2 puro, sem vasoconstrição. Útil em bradicardia pós-transplante (atropina é ineficaz) e torsades recorrente. Raramente disponível nos serviços brasileiros.
IV · específico p/ intoxicação por BB ou BCCGlucagon
3–10 mg IV bolus → 3–5 mg/h infusão
Cronotrópico e inotrópico independente dos receptores β — contorna o bloqueio por betabloqueador.
IV · intoxicação por BCC ou hipercalemia graveCálcio (gluconato/cloreto)
Intoxicação por BCC: gluconato 3–6 g (ou cloreto 1–2 g) em 10–20 min, repetir se necessário · Hipercalemia isolada: gluconato 1–2 g (ou cloreto 500–1.000 mg) em 10 min
Antagoniza o efeito do bloqueador de canal de cálcio e da hipercalemia no miocárdio.
4

Marca-passo — transcutâneo, transvenoso e definitivo

Transcutâneo — imediato/emergencial
Eletrodos externos no tórax. Disponível em minutos. Doloroso — sedação/analgesia obrigatória. Solução de ponte, não definitiva. Corrente: 70–200 mA — iniciar em 70 mA e aumentar até captura (limiar médio 80–120 mA).
Verificar captura
Espícula + QRS largo no monitor E pulso palpável correspondente. O monitor pode mostrar artefato — sempre checar o pulso.
Transvenoso / definitivo
Transvenoso temporário: ponte quando o transcutâneo é insuficiente ou mal tolerado. Definitivo: indicado quando a causa é irreversível ou há alto risco de recorrência.

Indicações — referência rápida

SituaçãoMP urgenteMP definitivo
BAVT (3º grau)SempreSe irreversível
Mobitz II sintomáticoSe instávelIndicado
Mobitz II assintomáticoMonitorizarIndicado (risco de progressão)
Mobitz I sintomáticoSe refratário à atropinaAvaliar individualmente
BAV 1º isoladoNão indicadoNão indicado
BRE novo + IAM anteriorConsiderar preventivo
DNS sintomáticaSe síncope/instabilidadeIndicado
Bradicardia pós-IAM inferiorSe sintomática e refratáriaGeralmente transitório — aguardar
5

Causas — investigue sempre

Isquemia / IAM
IAM inferior (CD) → BAV nodal, geralmente transitório. IAM anterior → BAV infranodal, mais grave, pode ser permanente. Ver protocolo de IAM →
Drogas — causa mais comum
Betabloqueadores, verapamil, diltiazem, digoxina, amiodarona. Suspender ou reverter (glucagon para BB/BCC).
Distúrbios eletrolíticos
Hipercalemia (ondas T apiculadas, QRS largo, BAVT). Hipermagnesemia. Hipocalcemia grave. Ver protocolo →
Infecciosas / inflamatórias
Doença de Lyme (BAV clássico em jovens). Miocardite. Endocardite com abscesso perivalvar (aórtico → feixe de His).
Hipotireoidismo
Bradicardia sinusal clássica, pode ser grave. Tratar com levotiroxina e suporte.
Hipotermia
T < 30°C: bradicardia progressiva, possível FV/assistolia. Aquecimento ativo é o tratamento.
Fisiológica / vagal
Atletas, sono, síncope vasovagal, reflexo do seio carotídeo. Benigna, assintomática, FC geralmente ≥ 45.
Degenerativa
Doença de Lev e de Lenègre (fibrose do sistema de condução) — causa mais comum de BAV em idosos. Indicação de marca-passo definitivo.
6

Situações especiais

BAVT no IAM inferior

Frequente (5–10% dos IAMs inferiores). Bloqueio nodal → escape estreito, FC ~40–60, geralmente estável. Geralmente transitório — reverte em horas a dias com reperfusão. Atropina funciona. MP transvenoso se refratário — não indica MP definitivo automaticamente.

BAVT no IAM anterior

Bloqueio infranodal → QRS largo, escape ventricular lento (~20–40 bpm), instável, alta mortalidade. Atropina ineficaz. MP transcutâneo imediato → transvenoso urgente. Mortalidade > 70% mesmo com MP.

Hipercalemia com BAV

Tratar a hipercalemia É tratar o bloqueio: 1) gluconato de Ca²⁺ 1–2 g IV · 2) insulina + glicose · 3) bicarbonato se acidose · 4) resina ou diálise. MP temporário se instável enquanto aguarda efeito. Ver protocolo →

Intoxicação por betabloqueador

1) Atropina (parcialmente eficaz) · 2) glucagon 3–10 mg IV bolus → infusão · 3) insulina em alta dose 1 UI/kg/h + glicose (terapia hiperinsulinêmica-euglicêmica) · 4) lipídio 20% se tóxico lipofílico · 5) MP transcutâneo se refratário.

Síndrome de Stokes-Adams

Síncope súbita por assistolia ou FV transitória em BAVT com escape instável. Paciente "cai sem aviso", recupera sozinho em segundos. Indicação absoluta de marca-passo definitivo.

Bloqueios de ramo

BRE novo com sintomas ou IAM → investigar. BRD isolado → geralmente benigno. BRD + BDAS (bifascicular) → monitorizar, MP se sintomático. Trifascicular (BRD+BDAS+BAV1º) → alto risco de BAVT, considerar MP preventivo.

7

Resumo — decisão rápida no plantão

RitmoEstável?Atropina?MP
BAV 1ºGeralmente simNãoNão
Mobitz IGeralmenteSim, se sintomáticoSe refratário
Mobitz IIRiscoIneficaz/evitarUrgente
BAVT — escape estreitoRelativoPode tentarUrgente
BAVT — escape largoNãoIneficazImediato
Bradicardia sinusalGeralmenteSe sintomáticaSe refratária
Regra de ouro para o plantãoQRS largo + bradicardia + instabilidade = marca-passo transcutâneo imediato. Não perca tempo com atropina.
Conduta copiada ✓