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Definição, critérios e diagnóstico diferencial
Classificação de gravidade
| Gravidade | Glicemia | pH | Bicarbonato | Estado mental |
| Leve | >250 | 7,25–7,30 | 15–18 mEq/L | Alerta |
| Moderada | >250 | 7,00–7,24 | 10–15 mEq/L | Sonolento |
| Grave | >250 | <7,00 | <10 mEq/L | Estupor/coma |
| Estado hiperosmolar | >600 | >7,30 | >15 mEq/L | Coma (pouca cetonemia, Osm >320) |
Tríade diagnóstica
Hiperglicemia
Glicemia >250 mg/dL (raramente <200 — CAD euglicêmica).
Acidose metabólica
pH <7,30 + bicarbonato <18 mEq/L + ânion gap >10 mEq/L.
Cetonemia/cetonúria
Beta-hidroxibutirato sérico >3 mmol/L · cetonúria ≥2+ na fita.
Ânion gap — calcular sempre
AG = Na⁺ − (Cl⁻ + HCO₃⁻) · normal 8–12 mEq/L. Na CAD: AG elevado (>12–16) por acúmulo de beta-hidroxibutirato e acetoacetato. AG corrigido para albumina: AG calculado + 2,5 × (4,0 − albumina g/dL) — importante em hipoalbuminemia, onde o AG pode parecer normal mesmo com acidose real.
CAD euglicêmica — armadilha clínicaOcorre em 10% das CADs, com glicemia <200 mg/dL. Causas: inibidores de SGLT-2 (flozinas) · jejum prolongado · gestação · vômitos persistentes · insulina parcialmente administrada. Suspeitar sempre que houver acidose com AG elevado + cetonemia em diabético, mesmo com glicemia "normal".
Diagnóstico diferencial — acidose com AG elevado (MUDPILES)
| Causa | Diferenciação da CAD |
| Metanol | Lactatemia normal · osmol gap elevado · cegueira |
| Uremia | Creatinina muito elevada · sem cetonemia · BUN alto |
| DKA (CAD) | ↑ Glicemia + cetonemia + diabetes |
| Propilenoglicol | Uso de lorazepam IV prolongado · osmol gap |
| Isoniazida / Ferro | Histórico de uso · sem cetonemia |
| Lactato (acidose lática) | Lactato >4 mmol/L · hipoperfusão/metformina/cianeto |
| Etileno glicol | Oxalato de cálcio urinário · osmol gap elevado |
| Salicilato | Salicilemia elevada · alcalose respiratória inicial · zumbido |
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Fisiopatologia — por que tudo piora ao mesmo tempo
GatilhoDeficiência de insulina → células não captam glicose → hiperglicemia. Hormônios contrarreguladores ↑ (glucagon, cortisol, catecolaminas, GH) amplificam tudo.
Via 1Glicogenólise + gliconeogênese: fígado produz glicose sem parar. Glicosúria → diurese osmótica → desidratação.
Via 2Lipólise descontrolada: tecido adiposo quebra triglicerídeos em AGL → fígado converte em corpos cetônicos (beta-hidroxibutirato, acetoacetato, acetona) → acidose metabólica.
PotássioO paradoxo do K⁺: acidose → K⁺ sai da célula → K⁺ sérico pode parecer normal ou elevado, mas o K⁺ corporal total está depletado. Quando a insulina entra → K⁺ volta para dentro da célula → hipocalemia grave → arritmias fatais.
DesidrataçãoDiurese osmótica: perda de 3–6 L de água · 300–500 mEq de Na⁺ · 300–1.000 mEq de K⁺ · 50–100 mmol de fosfato · 25–50 mEq de Mg²⁺. Sódio sérico geralmente falsamente baixo (hiperglicemia dilui o Na⁺ medido).
Precipitantes — por que entrou em CAD?
Infecção (40–50%)
Pneumonia · ITU · celulite · sepse. Investigar ativamente mesmo sem febre (neutropenia, corticoide, CAD grave mascaram sinais).
Insulina inadequada (25%)
Omissão de dose · bomba de insulina com falha · interrupção por jejum · DM1 não diagnosticado · início de DM1.
Causas cardiovasculares
IAM (pode ser silencioso no diabético) · AVC · TEP. ECG obrigatório em todo CAD de causa não clara.
Outras causas
Pancreatite aguda · trauma · cirurgia · gravidez · medicamentos (SGLT-2, antipsicóticos, corticoides) · álcool · estresse físico intenso.
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Diagnóstico — clínica, exames e avaliação inicial
Apresentação clínica
Sintomas típicos (horas a dias)
Poliúria · polidipsia · polifagia · perda de peso · náuseas e vômitos · dor abdominal (pseudoperitonite diabética) · fraqueza · confusão progressiva · hálito cetônico · respiração de Kussmaul.
Exame físico
Desidratação (turgência ↓, mucosas secas) · taquicardia · hipotensão ortostática · taquipneia com Kussmaul · rebaixamento (grave) · febre ausente mesmo na infecção · abdome difusamente doloroso (excluir causa cirúrgica).
Exames obrigatórios na admissão
Laboratório imediato
Glicemia capilar · gasometria arterial · eletrólitos (Na⁺, K⁺, Cl⁻) · ureia e creatinina · hemograma · beta-hidroxibutirato sérico (preferível à cetonúria) · osmolaridade sérica · lactato · uroanálise + urocultura · hemoculturas ×2 se suspeita de infecção.
Calcular obrigatoriamente
Ânion gap: Na − (Cl + HCO₃), meta <12. Na⁺ corrigido: Na medido + 1,6 × (glicemia−100)/100. Osmolaridade efetiva: 2×Na + glicemia/18. Gap de osmol: Osm medida − calculada (N <10). Delta-delta: (AG−12)/(24−HCO₃).
Na⁺ falsamente baixo na hiperglicemiaA hiperglicemia puxa água para o extracelular → dilui o sódio medido. Correção: para cada 100 mg/dL de glicemia acima de 100, adicionar 1,6 mEq/L ao Na⁺ medido. Na⁺ corrigido elevado indica desidratação real; baixo indica sobrecarga real de água livre. Guiar hidratação pelo Na⁺ corrigido.
Potássio — verificar ANTES de iniciar insulinaNunca iniciar insulina sem conhecer o K⁺ sérico. Se K⁺ <3,5 mEq/L: corrigir primeiro por 1–2h, depois iniciar insulina. Insulina com hipocalemia = parada cardíaca por fibrilação ventricular.
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Hidratação — a primeira e mais importante medida
A intervenção mais impactante nas primeiras horasA expansão volêmica reduz a hiperglicemia mesmo sem insulina (diluição + clearance renal de glicose). Restaura perfusão renal e tecidual. O déficit de volume na CAD é de 3–6 litros — repor gradualmente nas primeiras 24h.
0–1hExpansão inicial: SF 0,9% 1 L em 1h, independente do Na⁺. Restaurar perfusão. Acesso venoso calibroso.
1–4hConforme Na⁺ corrigido: baixo → SF 0,9% 500 mL/h · normal/alto → SF 0,45% 250–500 mL/h.
4–8hManutenção + glicose: quando glicemia <200 mg/dL, trocar para SF 0,45% + SG 5% 150–250 mL/h (previne hipoglicemia e permite continuar insulina).
8–24hCompletar déficit: reduzir progressivamente. Meta: repor 50% do déficit em 8h e o restante em 16h. Monitorar débito urinário.
Por que adicionar glicose com a glicemia ainda elevada?Quando a glicemia cai para <200 mg/dL, a insulina ainda é necessária para fechar a cetose — mas sem substrato causa hipoglicemia. Solução: SG 5% no soro junto com dose reduzida de insulina, mantendo glicemia 150–200 mg/dL até resolução da acidose (pH >7,30 + AG normal + HCO₃⁻ >18).
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Insulina — protocolo passo a passo
NÃO iniciar insulina se K⁺ <3,5 mEq/LCorrigir hipocalemia primeiro. Insulina com K⁺ baixo desloca ainda mais K⁺ para dentro da célula = hipocalemia grave = arritmia fatal.
bólus inicialInsulina regular IV
0,1 U/kg IV bólus
Alternativa: omitir o bólus e iniciar a infusão direto em 0,14 U/kg/h (ambas válidas pelo ADA 2023). Omitir bólus em: K⁺ <3,5 (corrigir primeiro) · gestante · criança.
infusão contínuaInsulina regular IV
0,1 U/kg/h IV
Preparo: 100 U em 100 mL SF = 1 U/mL. Meta de queda: 50–75 mg/dL/hora. Queda >100 mg/dL/h = risco de edema cerebral (especialmente em crianças) — reduzir velocidade.
Sem quedaGlicemia não cai 50–75 mg/dL na 1ª hora? Verificar hidratação (se inadequada, insulina não funciona bem) e dobrar a infusão para 0,2 U/kg/h. A resolução da acidose é mais lenta que a queda da glicemia — não descontinuar insulina baseado só na glicemia.
Glicemia 200Trocar para SF 0,45% + SG 5% (150–250 mL/h) e reduzir insulina para 0,02–0,05 U/kg/h, mantendo glicemia entre 150–200 mg/dL até resolução da acidose. Adicionar glicose não significa parar a insulina — ela fecha a cetose.
ResoluçãoCritérios (todos): glicemia <200 mg/dL · pH ≥7,30 · HCO₃⁻ ≥15 mEq/L · ânion gap ≤12 · beta-HB <0,6 mmol/L · tolerando VO. O AG normaliza antes do bicarbonato — usar o AG como guia mais confiável.
Insulina SC na CAD leve — opção válidaCAD leve (pH 7,25–7,30, alerta, tolerando VO, sem vômitos): insulina análoga SC (lispro ou aspart) 0,2–0,3 U/kg SC bólus, seguido de 0,1 U/kg SC q1h ou 0,2 U/kg q2h até resolução — tão eficaz quanto IV e pode ser feita fora da UTI (JAMA 2004).
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Potássio — o eletrólito que mata na CAD
O eletrólito mais crítico na CADA depleção de K⁺ corporal total é universal (perda urinária). O K⁺ sérico pode estar normal ou elevado pela acidose (troca H⁺/K⁺). Com o tratamento, o K⁺ cai rapidamente para dentro da célula. Hipocalemia grave causa FV e parada cardíaca.
| K⁺ sérico | Ação antes da insulina | Reposição de K⁺ |
| <3,0 mEq/L | NÃO iniciar insulina | KCl 40 mEq/h IV por 1–2h · remonitorar q1h · iniciar insulina quando K⁺ ≥3,5 |
| 3,0–3,5 mEq/L | NÃO iniciar ainda | KCl 20–40 mEq/h IV · remonitorar q1h · iniciar quando K⁺ ≥3,5 |
| 3,5–5,0 mEq/L | Iniciar insulina | KCl 20–30 mEq/h IV no soro · meta K⁺ 4,0–5,0 |
| >5,0 mEq/L | Iniciar insulina | Não repor ainda · monitorar q1–2h · repor quando K⁺ <5,0 |
Velocidade máxima de infusão de KClMáximo 40 mEq/h via acesso central · máximo 20 mEq/h via acesso periférico (dor e flebite acima disso). Sempre em solução diluída — nunca KCl concentrado IV direto (parada cardíaca imediata). ECG contínuo durante reposição rápida.
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Transição para insulina subcutânea e alta
Critérios para transição IV → SC — todos obrigatóriosGlicemia <200 mg/dL · pH ≥7,30 · HCO₃⁻ ≥15 mEq/L · AG ≤12 mEq/L · tolerando VO · K⁺ ≥3,5 mEq/L.
SobreposiçãoRegra fundamental: a primeira dose de insulina SC deve ser dada 1–2 horas ANTES de desligar a bomba IV. A insulina regular IV tem meia-vida de 5 minutos — sem sobreposição, janela de ausência de insulina → cetose de rebote.
Dose basalPaciente com insulina prévia: retomar esquema anterior. DM não insulinizado: calcular dose total diária (DTD) 0,5–0,8 U/kg/dia — 50% basal (glargina/detemir 1×/dia) + 50% bolus (análogo rápido em 3 refeições). Ajustar pelo perfil glicêmico.
CausaIdentificar e tratar o precipitante é obrigatório para prevenir recorrência. Revisar uso de insulina, educar, verificar técnica de aplicação e acesso ao insumo.
Educação na alta — "sick day rules"
Nunca suspender insulina durante doença
Mesmo sem comer, a insulina basal não deve ser suspensa — a doença eleva hormônios contrarreguladores, e a glicemia sobe mesmo em jejum. Orientar: monitorar glicemia q4h, cetonúria se glicemia >250, hidratação oral vigorosa.
Quando procurar a emergência
Glicemia persistentemente >300 mg/dL · cetonas ++/+++ na urina · vômitos que impedem hidratação oral · confusão mental · dor abdominal intensa · glicemia <70 mg/dL com sintomas.
Resumo do protocolo
- Diagnóstico: glicemia >250 + pH <7,30 + HCO₃⁻ <18 + AG >10 + cetonemia · calcular AG, Na⁺ corrigido, osmolaridade · ECG · investigar precipitante
- Potássio PRIMEIRO: K⁺ <3,5 → repor KCl 20–40 mEq/h e esperar antes da insulina
- Hidratação: SF 0,9% 1L na 1ª hora → ajustar pelo Na⁺ corrigido · SG 5% quando glicemia <200
- Insulina IV: 0,1 U/kg bólus + 0,1 U/kg/h · meta queda 50–75 mg/dL/h · não suspender antes de AG normalizar
- Eletrólitos: K⁺ 20–40 mEq/h no soro · fosfato se <1,0 · magnésio se <1,5 · bicarbonato só se pH <6,9
- Monitoramento: glicemia q1h · K⁺ q1–2h · gasometria q2–4h · AG a cada gasometria
- Resolução: glicemia <200 + pH ≥7,30 + HCO₃⁻ ≥15 + AG ≤12 → SC com sobreposição 1–2h antes de desligar IV